Você já deve ter ouvido falar do Pix. Seja
pelos e-mails insistentes do seu banco, convidando você pra fazer o pré-cadastro, ou
pelas propagandas na TV e nas redes sociais. O novo meio de pagamento eletrônico instantâneo
que vem sendo desenvolvido pelo Banco Central   será lançado em 16 de novembro e o
registro começa agora em outubro. Você também já deve ter ouvido falar que ele vai
permitir a realização de transferências bancárias   em qualquer dia – inclusive feriado -, a qualquer
hora e sem custo. O fim da TED e do DOC. É verdade, mas não é só isso. Há quem diga que
ele pode provocar mudanças profundas na forma   como a gente faz e recebe pagamentos.
Sou Camilla Veras Mota, na BBC News Brasil,   e vou explicar nesse vídeo o que é o Pix,
o quão seguro ele é e o que significa para   todos nós e para o mercado de pagamentos
eletrônicos, que movimentou quase R$ 2 trilhões no Brasil só no ano passado.
Bom, vamos começar pelos consumidores,   como esse negócio pode afetar a sua vida.
Além das transferências instantâneas,   que eu mencionei lá no começo (a TED e o
DOC), o Pix também ameaça o futuro do boleto   bancário e é um candidato a substituir
o cartão nas compras feitas no débito e   o dinheiro nas compras em espécie.
Isso porque ele também vai permitir a   realização de operações usando QR code, que
você consegue manipular usando seu celular. Vou explicar.
No caso do boleto,   o pagamento passa a ser feito pelo aplicativo
do banco ou de uma carteira eletrônica, aquelas   e-wallets, como PicPay ou Mercado Pago.
Por exemplo: quando o cliente faz uma compra   online, para efetuar o pagamento ele
só precisa abrir o app e ler o QR   Code do Pix. Ao contrário do boleto, a
transação é processada instantaneamente,   o que é menos uma dor de cabeça pro comércio.
As compras em dinheiro ou débito seguem a mesma   lógica. Em um estabelecimento comercial
físico, por exemplo, o lojista pode gerar   o QR Code ou imprimi-lo e deixá-lo no balcão —
como já acontece hoje em estabelecimentos que   aceitam pagamentos instantâneos
de carteiras eletrônicas. A gente falou da função débito
do cartão. E o crédito? Bom, por enquanto, ele tende a ser pouco
afetado, porque o Pix processa transações   instantâneas, e não a prazo.
Existe a previsão de um Pix agendado,   que seria algo semelhante a uma compra com
cartão de crédito, mas, pelas regras atuais,   ele acaba tendo pouco apelo, porque a
operação é cancelada caso não haja dinheiro   na conta quando ele for processado.
Sem garantia de recebimento, não é uma modalidade   interessante para o comércio nesse momento.
Agora vamos à “parte operacional”. Para que uma pessoa física use o Pix ela só
precisa ter uma conta corrente, conta poupança   ou uma carteira eletrônica. O cadastro é feito
por meio da instituição que gerencia a conta e   o serviço não tem custo, é de graça.
O cliente tem a possibilidade de cadastrar   uma “chave Pix” para facilitar as transações
— uma espécie de “apelido” que vai ser usado   para identificá-lo nas transações,
como CPF, e-mail e telefone. Isso quer dizer que não vai ser mais preciso ficar
escrevendo aquele catatau de informações sempre   que for fazer uma transferência: número da conta,
agência, CPF… É só colocar a chave Pix. A pessoa física pode ter “chaves Pix” em
mais de uma instituição bancária, mas só   pode ter uma modalidade por instituição.
Ou seja, se você cadastrou o CPF em um determinado   banco, por exemplo, ele só pode ser usado como
chave Pix naquele banco. Você pode usar seu   e-mail em outro banco, por exemplo.
E se eu não fizer uma chave, vou poder   usar o Pix? Vai. Mas o Banco Central
recomenda o cadastro de uma. Agora vamos passar a quem está do outro lado do
balcão, os estabelecimentos comerciais. Gratuito para a pessoa física, o Pix
vai ser cobrado da pessoa jurídica.   Mas o custo tende a ser muito menor do
que aquele em que se incorre hoje. Isso porque a cadeia de meios de
pagamentos eletrônicos tem vários elos,   e cada um deles ganha um pouquinho.
Entre o momento em que você coloca o cartão   na maquininha e o aviso de que a transação
foi aprovada, muita coisa acontece. A credenciadora, que é a maquininha, processa a
compra, envia as informações à bandeira do cartão,   que aciona o emissor, o banco. Uma vez
aprovada a transação, a informação faz   o caminho de volta – passando pelo banco e pela
bandeira – até a maquininha, que libera a loja   para o recebimento do valor.
A cada venda feita no cartão,   o estabelecimento é cobrado por um percentual da
transação, a “merchant discount rate”, ou MDR,   que remunera todos esses atores.
Em uma venda feita pelo Pix com QR Code,   por exemplo, o consumidor pode pagar com
o celular, e a operação é processada pelo   Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI),
gerido e operado pelo Banco Central.
Por isso o custo é menor – e por isso
os estabelecimentos comerciais e os   trabalhadores autônomos devem ter um
incentivo pra adotar a nova modalidade. E, com uma capilarização pelo comércio,
quem também tende a ganhar são as empresas   de carteiras eletrônicas, aquelas sobre as quais
comentei no começo, como PicPay e Mercado Pago,   que funcionam pelo celular e já fazem pagamento
por QR code e transferência de valores. Se o Pix for amplamente adotado, ele
acaba resolvendo o que hoje é um gargalo   pra essas empresas, que é o tamanho
da rede em que o app é aceito. Eu conversei com o João Bragança, especialista em
meios de pagamentos da consultoria Roland Berger,   e ele também colocou no grupo de potenciais
ganhadores grandes empresas de tecnologia,   que teriam oportunidade de entrar ou acelerar
o crescimento na área de serviços financeiros;   e os bancos digitais e fintechs, que podem
não apenas expandir a carteira de clientes,   mas consolidar a base que já têm.
Hoje muitos brasileiros que têm conta nessas   instituições financeiras menores ainda concentram
boa parte de suas movimentações nos bancos de   varejo tradicionais. É aquela situação em que
a pessoa fez o cadastro no Nubank, por exemplo,   mas ainda faz muita coisa no aplicativo do
Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil. Com o Pix, essa lógica poderia começar a mudar:
ele poderia servir como uma espécie de âncora de   relacionamento com o cliente, de fidelização —
e daí a movimentação dos grandes bancos, alguns   com grandes campanhas publicitárias, para que os
clientes registrem o Pix em suas plataformas. Os perdedores em potencial
você já deve imaginar quem são:   todos aqueles que hoje lucram com os
vários elos da cadeia de pagamentos. As “maquininhas”, que são conhecidas como adquirentes,   as bandeiras de cartões e as processadoras, que prestam parte do serviço operacional   ligado aos cartões e às transações.

A probabilidade de que a mudança gere perda   de receita e diminua a rentabilidade
dessas empresas é grande. Mas por que o Banco Central está lançando a
plataforma, se mexe com tanta “gente grande”? Felipe Ahouagi, que é especialista em
meios de pagamentos da consultoria L.E.K.,   explicou algumas das razões.
O Pix, ele diz, é mais uma etapa   da agenda de competitividade do BC
— a mesma que quebrou o monopólio das maquininhas   lá em 2009, que visa estimular a concorrência e
diminuir os custos de transação no país. Além disso, a autoridade monetária também conta
com a vantagem de que essa modalidade dá maior   visibilidade às transações (especialmente àquelas
que antes eram feitas com dinheiro em espécie),   com rastreamento de ponta a ponta.
Isso ajuda a reduzir a informalidade,   a evasão de divisas, e a aumentar
regularização do sistema. Vamos então à última parte
deste vídeo: a segurança. Bom, não houve padronização nesse sentido por
parte do Banco Central: a questão da segurança   é de competência das instituições financeiras. A
lógica é a mesma das demais transações bancárias:   os sistemas de mitigação de risco e as barreiras
antifraude variam de uma empresa para outra. No caso do Pix, além da segurança dos próprios
aplicativos das instituições financeiras,   elas podem colocar outras camadas
— um limite máximo de valor para   realização de operação, por exemplo.
Ele tende a ser seguro. Mesmo assim, como alerta   João Bragança, da Roland Berger, provavelmente
devem aparecer casos de fraude – pelo simples   fato de que isso acontece com praticamente
todas as modalidades de pagamentos. “É o   ciclo de vida de qualquer operação”, ele
diz, “uma jornada de aprendizado”.

E deve-se ficar atento não apenas à possibilidade
de golpes, mas também de erros cometidos   pelos próprios clientes.

Como o Pix é instantâneo,   uma transferência ou um pagamento feitos por
engano não têm garantia de ressarcimento. Também ficará a cargo de cada instituição
decidir como vão lidar com essas situações. Espero que esse conteúdo tenha sido útil.
Eu fico por aqui. Obrigada e até a próxima!

 

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